Campo Branco

Campo Branco é uma cantiga de Elomar Figueira Melo. Nela Elomar retrata uma região árida no Estado da Bahia, região Nordeste do Brasil onde nasceu. Apesar dos sofrimentos trazidos pela seca, que às vezes se arrasta por anos, o autor belamente canta a esperança e a felicidade que a trovoada há de trazer para  o sertão.

Campo branco minhas penas que pena secou
Todo o bem qui nóis tinha era a chuva era o amor
Num tem nda não nóis dois vai penano assim
Campo lindo ai qui tempo ruim
Tu sem chuva e a tristeza em mim

Peço a Deus a meu Deus grande Deus de Abrãao
Prá arrancar as pena do meu coração
Dessa terra sêca in ança e aflição
Todo bem é de Deus qui vem
Quem tem bem lôva a Deus seu bem
Quem não tem pede a Deus qui vem

Pela sombra do vale do ri Gavião
Os rebanhos esperam a trovoada chover
Num tem nada não tembém no meu coração
Vô ter relampo e trovão
Minh’alma vai florescer

Quando a amada a esperada trovoada chegá
Iantes da quadra as marrã vão tê
Sei qui inda vô vê marrã parí sem querer
Amanhã no amanhecer
Tardã mais sei qui vô ter
Meu dia inda vai nascer

E esse tempo da vinda tá perto de vin
Sete casca aruêra cantaram prá mim
Tatarena vai rodá vai botá fulô
Marela de u’a veis só
Prá ela de u’a veis só


PRESS KIT



PARA ENTENDER ELOMAR*

 O Violeiro

Elomar Figueira de Mello, filho de tradicional família da zona da mata baiana, nasceu na casa da fazenda Boa Vista, em 21 de dezembro de 1937, em Vitória da Conquista (BA). Primeiro filho de Ernesto Santos Mello, tangedor de gado, e Eurides Gusmão Figueira Mello, costureira. A formação protestante, ainda criança, o atraiu para a musicalidade do entorno, enquanto empreendia a formação autodidata: da música de origem sacra à profana de cantadores, repentistas e violeiros.

Aos 16 anos rumou para Salvador a fim de completar os estudos e ingressou na faculdade de arquitetura, na Universidade Federal da Bahia, em 1959. Nessa mesma universidade frequentou, por cerca de três meses, os Seminários Livres de Música dos regentes e professores Ernst Widmer e H. J. Koellreutter. Enquanto o Brasil desafinava os ouvidos com a bossa nova, Elomar começava a estruturar seu cancioneiro. Ao terminar os estudos, retornou para Conquista onde, em 1966, casou-se com Aldamária de Carvalho Mello e tiveram três filhos: Rosa Duprado, João Ernesto e João Omar.

Em 1968 lançou o primeiro compacto simples com as composições O Violeiro e Canções da Catigueira. Em 1972 publicou o primeiro álbum,Das Barrancas do Rio Gavião, em que agregava elementos e influências do romanceiro medieval ibérico e do cancioneiro popular nordestino, conforme destaca a apresentação do disco feita por Vinícius de Moraes. A partir dos anos 1980, em detrimento da arquitetura, priorizou a música. É desse período os trabalhos Parcelada Malunga e Fantasia leiga para um rio seco, entre outros. Em 1981 estreou em São Paulo o prestigiado espetáculo ConSertão, com participação de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte.

Em 1984, ano do show Cantoria – com Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai – passou a se dedicar à  sua obra erudita e adentrar no universo das óperas, concertos, antífonas e escrita orquestral. Junto do seu filho e parceiro João Omar, transita com desenvoltura nos espaços da tradução cultural desses elementos de origem europeia. O disco Árias Sertânicas, de 1992, registrou os fragmentos de seu trabalho operístico. Com álbuns lançados pelos emblemáticos selos Kuarup e Marcus Pereira, Elomar criou também sua própria gravadora, a Rio do Gavião, responsável por quatro dos seus 16 discos.

Elomar, que vive na fazenda Casa dos Carneiros, labuta tanto na criação de bodes e na rotina da vida rural, quanto em sua obra musical e literária, que se desdobra em uma série de composições, de formatos diversos – como óperas, sinfonias, concertos e peças para violão solo, e ensaios, poemas, peças de teatro, roteiros de cinema e romances. A maior parte do material é inédito.

O arquiteto

Formado em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, Elomar trabalhou em inúmeros projetos: de casas de bonecas e currais a pontes, hospitais, e estádios de futebol; escolas e teatros. Na Casa dos Carneiros, onde vive, e nas cercanias, projetou uma ágora na qual se situaria o Domus Operae – para a série de Festivais da Ópera Brasileira –, com Teatro Escola Lírica Mineira, o Museu Vivo com Casa de Farinha, a Casa do Leite, o Engenho e a Tenda do Ferreiro. E, ainda, uma escola-parque para o ensinamento das práticas rurais.

A arquitetura musical de Elomar é, por sua vez, marcada por uma audácia harmônica na qual popular e erudito se entrelaçam compondo um edifício barroco e mestiço sem parelha na paisagem da música brasileira. Utilizando na mesma argamassa o hinário cristão, a sonoridade árabe-ibérica, o cancioneiro popular nordestino, compõe a partir de quebras de ritmos e quadraturas, estabelecendo cromatismos ímpares no panorama musical. Como músico-arquiteto, sua obra estabelece redobras na matéria em ângulos agudos, direção ao infinito.

O sertão

O semiárido brasileiro é uma das mais povoadas regiões de terras secas do planeta. Historicamente castigado pela estiagem e pelo descaso político, foi marcado com a brasa do trágico em nosso imaginário ‒ vidas secas, retirantes, asa branca ou Diadorim, em todos a dor e a perda latejam.

Como a economia rural da região sempre foi frágil, a população de lá por anos muniu o país de mão de obra na mais representativa diáspora brasileira ‒ sertanejos construíram as capitais do Sudeste, desbravaram as selvas do Norte e os serrados do Centro-Oeste. Por onde foram, levaram seus hábitos e sua cultura. Carne-seca e farinha, religiosidade e superstição, música e poesia.

No sertão da Bahia estão três fazendas que marcaram a vida de Elomar:

  • A Casa dos Carneiros, no, distrito do Iguá, Vitória da Conquista;
  • A Fazenda Duas Passagens, Tanhaçu, divisa com Anagé, no curso do Rio Gavião, e por ele, geralmente, chamada de Gavião;
  • A Fazenda Lagoa dos Patos, na encosta da Chapada Diamantina. Situada em Livramento de Nossa Senhora, é comumente posta por Elomar no município próximo, Lagoa Real, conhecido pelas Festa e Missa do Vaqueiro.

Cenários e habitantes dessas terras estão presentes em sua obra, convivendo com suas fantasias. Há lugares que existem e outros que ainda não foram encontrados. Há pessoas de carne e osso e outras vaporosas.

A lua

Os sertanejos – e outros povos de cultura telúrica, os indígenas ‒ marcam os tempos de plantar e de colher, ou atividades como amassar o barro para construções ou cortar o cabelo, pelas fases da lua, que também influencia assombrações, amores, marés. O mesmo faz Elomar e, dessa forma, conhece as quadras da lua e por meio delas registra o tempo.

Dialeto sertanezo

Desde o seu primeiro trabalho, Elomar explora uma expressão própria da língua portuguesa – grafia, termos, expressões – que copia a fala do sertanejo e foi batizado pelo criador de “dialeto sertanezo”. Essa troca de letras na palavra sertanejo é exemplo. Segundo o autor, a necessidade veio da busca por originalidade na fala de seus personagens sertanezos.

Imagem

Elomar, desde o início da carreira, defende que sua imagem não esteja atrelada à sua obra. “Eu nunca vi a cara de Sócrates”, provoca, aludindo ao filósofo da Antiguidade grega. Dessa forma, em seus discos evita o uso de fotografias suas, preferindo pinturas, desenhos e outros recursos. Quando questionado sobre a possibilidade de um ensaio fotográfico para a Ocupação, mesmo que não registrasse sua face, Elomar apresentou como solução a poesia de sua autoria Meu Retrato.

À guisa de fotografias de Elomar, o artista Juraci Dórea foi convidado para criar uma série de imagens que registrassem o cantor e o sertão profundo. Juraci, natural de Feira de Santana, é escritor, artista visual, é amigo pessoal do cantor e para ele produziu material de discos. Trabalha com pintura, escultura e murais. O Projeto Terra, que espalhou esculturas de madeira e couro pelo semiárido baiano, é seu trabalho mais representativo e parece habitar o mesmo mundo mágico de Elomar ‒ esse sertão profundo atemporal.

Com outros companheiros sertanezos, Elomar e Juraci criaram a Quarta Real Academia, formada por eles, o poeta Antonio Brasileiro, o maestro João Omar e a pesquisadora Jerusa Pires.

Universidade Lêiga Sertaneza

Uma universidade que não exigisse vestibular e tampouco oferecesse diploma, essa é a premissa da Universidade Lêiga Sertaneza, uma academia sem academicismo, mas com a partilha democrática e universal do conhecimento e dos bens culturais, um local inspirado pelos ideais escolásticos da antiguidade e que pudesse abrigar alunos de várias procedências: do médico ao engenheiro, do marceneiro ao lavrador.

O projeto inconcluso de ensino descentralizado seria implantado em Vitória da Conquista, e se fundamenta em cinco “collegiuns”, de História, Literatura, Línguas Mortas, Música e Princípios, abarcando conteúdos de interesse regional, nacional e geral, concretizadas em seminários livres ao modo de “concertos audiovisuais”, no que se popularizou chamar de aula-espetáculo.

Completa a proposta, uma rádio, a rádio Chapada Diamantina-Rio de Contas, como propagadora da filosofia da Universidade Sertaneza.

* Conteúdo extraído de  http://conteudopublicacoes.com.br/elomar/elomar.html
2015 – PRESSKIT DESENVOLVIDO PELA CONTEÚDO COMUNICAÇÃO (em 27/04/2016).

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