O filme O Cavalo de Turim, de Béla Tarr, é profundamente marcado pela sombra do filósofo Friedrich Nietzsche. A história, inspirada em um incidente onde Nietzsche teria tentado proteger um cavalo das chicotadas de seu dono, reflete a crescente desesperança que o filósofo experimentou nos anos que antecederam sua morte, em 1900. O filme cria uma ficção a partir da vida do dono do cavalo, e a trilha sonora, composta por Mihály Víg, é um elemento crucial para a construção da atmosfera opressiva e melancólica que permeia a narrativa.
A música de Víg não apenas acompanha o filme, ela é sua essência, transformando a filosofia abstrata de Nietzsche em algo visceral e imediato. A característica mais marcante da trilha é sua repetição, que ecoa a ideia perturbadora do “eterno retorno” – a crença de que a vida poderia se repetir eternamente, aprisionando-nos nos mesmos sofrimentos.
Análise musical
A composição de Víg é minimalista e deliberadamente desoladora. A peça está escrita em Do menor (indicado pelos três bemóis na armadura: B♭, E♭, and A♭), uma escolha tonal que evoca uma atmosfera sombria e melancólica. A clave de Fa e o padrão repetitivo de arpeggio, executado pelo violoncelo, criam uma sonoridade ominosa e uma tensão constante, que permanece sem resolução.
O compasso de 3/4, embora tradicionalmente associado à valsa, é empregado aqui de forma lenta e opressiva. A primeira nota do compasso é bem marcada, sugerindo um ritmo oscilante, mas a melodia, em notas com três tempos de duração a 90 bpm, e o arpeggio incessante, impedem qualquer sensação de leveza ou fluidez.
A repetição constante do arpeggio é fundamental para evocar a sensação de “eterno retorno”, criando um senso de inevitabilidade e impossibilidade de escapar do ciclo. Os cadências ascendentes e descendentes em acordes truncados reforçam essa sensação, produzindo um efeito hipnotizante que restringe o movimento e incrementa a tensão psicológica. O arpeggio, em constante movimento, parece buscar um ponto de repouso que nunca encontra, intensificando a inquietação.
O registro grave e pesado do violoncelo contribui para o tom opressivo, enquanto o soar repetitivo das cordas friccionadas simula a monotonia exasperada e desesperada da existência. O movimento lento e espaçado da melodia na pauta superior transfere o foco para o arpeggio na pauta inferior, mantendo o ouvinte em um estado de expectativa por uma resolução que nunca chega.
A Música como Reflexo da Narrativa
A trilha sonora de O Cavalo de Turim reflete a história sombria de exaustão e repetição contada no filme. Assim como os personagens – um pai e uma filha presos em uma rotina entorpecida de sobrevivência – a música se repete incessantemente, sem variação. Seus dias se misturam em monotonia e o ritmo implacável da música reflete essa futilidade, fazendo o ouvinte sentir o peso de um ciclo que se recusa a se romper.
Diferente da maioria das músicas, que criam tensão para depois resolvê-la, a composição de Víg permanece em um estado de inquietação. A falta de conclusão espelha a crença de Nietzsche de que a existência não tem um sentido final ou redenção. Assim como os personagens testemunham um mundo que se apaga, os acordes não resolvidos da música evocam uma realidade em que a esperança se dissipou.
O andamento lento e arrastado da parte melódica da música sugere os passos arrastados do cavalo exausto, um símbolo do sofrimento que o próprio Nietzsche experimentou antes de seu colapso mental. As notas graves do violoncelo e os momentos de quase silêncio amplificam o vazio de vidas desprovidas de propósito, levantando a perturbadora questão: Se tivéssemos que reviver nossas lutas infinitamente, conseguiríamos suportar? O filme – e sua trilha sonora – sugerem uma resposta sombria.
A música de Víg é mais do que uma trilha sonora; é a alma de O Cavalo de Turim, uma experiência que permanece, deixando o ouvinte a refletir sobre o peso da existência muito depois que a última nota se desvanece.
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